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EX-PROFESSORES E FUNCIONÁRIOS

O trabalho com Aristides no CCEM foi um projeto que foi
se desenvolvendo aos poucos, durante anos de aprendizagem para nossa escola,
para o Tidinho e para a sua família. Recebemos orientação durante esses anos
de especialistas, técnicos e um apoio incondicional de sua família.
É relevante que as escolas entendam que o trabalho
inclusivo é uma realidade que não podemos mais negar. Uma escola que busca a
qualidade nas relações educacionais têm que se preocupar também com a
sociedade inclusiva, oferecendo oportunidades iguais para que os alunos com
necessidades especiais possam ver seus sonhos saírem do papel, a felicidade se
tornar uma constante em suas vidas e os seus direitos de cidadão respeitados
por toda a sociedade.
Raquel Latini
- Diretora CCEM.

LENINHA
"Quando o Aristides chegou aqui na escola ele não tinha controle motor nenhum,
nem para tomar água, tínhamos que colocar água na boca... eu e a Dalva
levávamos ele ao banheiro, depois com a fisioterapia e a confiança que ele foi
adquirido foi desenvolvendo... os colegas o acolheram maravilhosamente bem e,
a partir daí eles é quem o levavam para todos os lados."
DALVINHA
Dalva desabou em lágrimas durante o seu depoimento sobre o Aristides: "Me
lembro quando o Aristides veio estudar aqui...acho que ele veio na quinta
série...muito comunicativo... Aristides é um menino abençoado...nunca desanimou.
Sempre balançava o braço e dizia: vou conseguir!
Uma das coisas boas que tive em minha vida foi a convivência com ele.
Quando hoje eu o vejo trabalhando...sei que tive uma participação e isso me
deixa muito feliz".

O que eu acho mais interessante é que o Aristides
conquistou com os colegas dele, o respeito uma solidariedade tão grande...
Participava de tudo... quando tinha jogo os colegas levavam ele para a
quadra, o tempo inteiro ele participava de tudo... levavam ele para o
banheiro, voltavam com ele...Eu acho que a escola foi muito positiva na vida
do Aristides e foi muito positiva para os colegas dele também, pois os
colegas aprenderam a respeitar e a conviver. Quando o pai parava aqui em
frente a escola, já tinha os colegas que vinham ajudar a tirar a cadeira de
rodas dele...isso tudo gerou uma solidariedade diferente na sala...outra
coisa...ele jogava futebol com os meninos...era goleiro...se posicionava na
cadeira de rodas e "fechava" o gol.
Claudine, professora de Biologia

Prof.
Dadace, Professora de Língua Portuguesa e Produção de texto
Sempre que vejo Aristides, penso no poder que a mãe de um garoto tem
para alterar sua vida, para influir nas decisões à sua volta, para auxiliar os
filhos, seja com ações concretas, com estudo e exposição de idéias,
participação, etc... É o que a gente sempre escuta:”Deus colocou um anjo na
Terra, sob o manto da Mãe Maria”. Assim revelou esse poder não desanimando,
buscando, questionando, favorecendo... Também o pai de Aristides assim o fez,
com sua dedicação , participação ao lado de Lúcia, acompanhando-o ao estudo,
ao futebol, aos passeios, quando não estava trabalhando. E os irmãos, também
com sua solicitude, carinho e a boa vontade para com ele. Como a mãe conseguiu
com a aparente fragilidade, o esforço hercúleo de congregar toda a família em
torno de um mesmo objetivo? Ser especial mesmo!
Penso ,da mesma forma,sobre o tempo em que estudou no CCEM. Quando ali
chegou, me preocupei. Acostumada com alunos com os movimentos sincronizados,
pensei se iria dar conta de tê-lo na sala com outros, muitos alunos, que
poderiam não aceitá-lo, implicar com suas dificuldades, com sua agitação
motora provocada pela paralisia cerebral na inconsciência descompromissada de
alguns jovens... Mas não.Tudo não passou de temores antecipados. Cativou os
colegas e a professora. Deu conta das minhas aulas de Língua
Portuguesa, e lembro-me de que gostava muito de ler. Lúcia falava que ele lia
muito em casa também. Sua participação nas aulas contava com a ajuda de um
computador que ganhara do Pe. Marino, um computador com o teclado protegido
com uma placa. Com o indicador, ele digitava os textos. O computador era
transportado para a escola e também nele é que ele fazia as atividades de
sala. Gostava muito de jogos virtuais e vivia conversando e trocando os mesmos
com os colegas.
Logo, revelaria uma inteligência superior, um humor no que fazia e
dizia, a participar das atividades e até das conversas... bem humoradas.
Tratei-o como qualquer outro aluno, zangava quando preciso, às vezes ele se
zangava, mas, no geral, ria, acatava. Também brincava em determinadas
situações. Entrava nas brincadeiras dos colegas, que o chamavam carinhosamente
de Tidinho.
Não fui preparada para atendê-lo, mas Deus certamente iluminou a mim e
a todos os, professores do CCEM na ocasião. Mas, se tivéssemos sido preparados
então, talvez pudéssemos, professores e funcionários, oferecer muito mais a
ele.
Na ocasião, em minhas aulas, eu trabalhava muito com seminários a
respeito de temas da atualidade, e sempre este aluno dava suas opiniões,
ouvido atentamente pelos colegas. E a gente percebia a amizade que eles tinham
a ele, a ajuda quando ele precisava, mas não era como se ele fosse um
coitadinho, não. Às vezes eles reagiam a algo que ele falava, às vezes
brigavam, às vezes brincavam, mas tudo normal, a interação dele com a turma
era muito boa. Bom ver que a escola estava no caminho era ver ele passando da
aula de Educação Física(!) em seu velotrol/triciclo adaptado, rodeado de
colegas, rindo e conversando.
Depois na adolescência, já com um grupo de colegas mais selecionado,
amigões, via-o passar com os colegas segurando apenas na ponta da gola da
camisa, mostrando que a fisioterapia, o cuidado que os pais o cercaram dera
resultado. Ele andava , mas tinha receio de aventurar-se sozinho, o que fazia
tranqüilamente quando na praia, no dizer dos colegas.
Mais tarde, vi-o cursando Ciências Biológicas na Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras "Santa Marcelina", onde trabalho. E senti como se a vitória
fosse de meus filhos. Assim me senti também quando soube de sua aprovação no
DEMSUR, e fiquei apreensiva até que fosse chamado. No dia de sua formatura,
vi-o, de pé , de terno, tirando retratos com os familiares e colegas.Dei-lhe
um abraço, o da vitória. Venceu ele, o pai, a mãe, os irmãos, a família. E a
sociedade, de ter alguém sensível, responsável, preparado( como os professores
revelam que ele coordenava os seminários!...).
Imagine se a mãe(Anjo, sim!) tivesse aceitado tudo, não tivesse lutado,
não tivesse inspiração de onde buscar, onde recorrer para atendê-lo?

Quando convidada a falar sobre Aristides
sentimos o quanto é difícil explicitar nossas emoções, nossa saudade de um tempo
guardado no cofre das mais caras lembranças.
Nosso aluno por quatro adoráveis anos, acolhia-nos sempre, professores e
colegas, com um sorriso aberto de quem sabe que a alegria nasce da alma,
trabalhava suas idéias de tal forma que chegavam a nós com a objetividade de
quem sabe que a simplicidade explica e resolve, participava como quem entendia
que sua participação estimulava o entendimento de muitos. Em sala de aula
sentíamos “em casa”, aprendíamos que entre operações e expressões matemáticas
existiam cooperação e respeito. Sua turma era cúmplice, parceira, a extensão de
seu bom humor.
Impossível não destacar a presença da família de Aristides em sua trajetória
escolar. Participação e doação ativas fizeram com que vínculos de grande amizade
se formassem entre Escola e Família.
Aristides é um apaixonado pela vida, é capaz de transformar suas limitações em
força para realizar seus anseios, é a alegria de quem aprendeu muito mais do que
ensinou, o carisma que envolve e faz-nos pequenos diante de tanta grandeza.
Aristides é “um mestre”.
Maria Amélia Queiroz Xaia
Professora
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